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UM DIÁLOGO ENTRE CÚMPLICES - POR MARIA ÁNGELICA MELENDI

“Original”, por tanto, como adição de olhares, de significações, de remissões e contextualizações em cuja intersecção os elementos que conformam a obra mostram-se “como outros”, interpretam-se como arte. Larrañaga Altuna 

— Então, hoje a arte é um diálogo entre cúmplices? — disse Yayo. Ficamos todos em silêncio, surpresos pela frase. Falávamos de Duchamp e daquele que tal vez fosse o primeiro readymade: o bilboquê com que presenteou a Max Bergmann, seu amigo de noitadas pelas tavernas e os bordeis de Montmartre. Bergmann — um pintor alemão que estudara arte em Paris — narra no seu diário uma farra memorável, em companhia de Marcel. Dias depois, receberia o brinquedo, no qual Duchamp gravara com um punção: Bilboquet/Souvenir de Paris /A mon ami M. Bergmann /Duchamp printemps 1910.  

 

Se considerarmos que o sentido do bilboquê era transparente para os artistas, não está claro para nós porque Duchamp gravou essa inscrição na bola do brinquedo. O objeto alude, sem dúvida, ao acontecido naquela noite de boêmia e é difícil se resistir a uma leitura erótica. Todos os detalhes, porém, morreram junto dos amigos. A cumplicidade entre Max e Marcel, urdida na escola e nas ruas, plasma-se num objeto singular: o bilboquê. Um proto ready-made, que antecede em três anos ao primeiro — a roda de bicicleta — e em cinco a sua conceituação.

 

Um diálogo entre cúmplices? A arte começaria, agora, com uma troca de olhares, com duas mãos que se apertam, com uma festa, com um abraço? Artista é, então, aquele que inventa relações entre as pessoas com a ajuda de signos, de imagens, de formas, ações ou gestos? Aquele que produz realidade através de atos que denunciam o mundo da arte para, enseguida, escapar dele e se inserir no cotidiano?

 

Para Nicolas Bourriaud, um artista hoje, não é somente quem cria pinturas, esculturas ou mesmo instalações. O artista faz, apenas, exposições: a nova unidade da arte. Assim, a obra isolada não é significativa pois o sentido se estabeleceria nos possíveis percursos entre uma obra e outra da mesma exposição e, entre elas e todas as outras obras da arte.  

 

A exposição A casa de Alan Fontes nos obliga a conjecturar sobre essas possibilidades de inserção no real apartir da exacerbação da pintura como meio. O impuro e o contaminado instalamse na sala de exhibição e apontam para a ficção redobrada do material pictórico que se expande e se confunde numa mobília real. Os quadros ja não criam espaços imaginados, já não abrem janelas para a paisagem, nem sequer para o interior. Os quadros são apenas quadros nas paredes de uma casa impossível, do simulacro de uma casa instalada numa galeria de arte.

 

Claro que podemos, ainda, adentrar nesse espaço ilusório e ver nesses quadros outras imagens, as das obras de arte que aparecem neles, citadas impudorosamente.  Um diálogo entre cúmplices. Uma brincadeira de estudantes de arte, um jogo entre jovens que, como Marcel e Max, atravessam noites intermináveis debulhando uma conversa plagada de subentendidos, de afinidades partilhadas, de dissidências ferozes.

 

Empilho bonecos de pelúcia no canto do quarto e você entende que quero lembrar de Anette. Uma janela do quarto se abrirá (sempre)  para o quintal de Lucien;  da outra veremos (sempre, também) a piscina do David. Como gostamos tanto deles, queremos tê-los por perto o tempo todo. Não importa quão distantes ou quão próximos estejam do nosso tempo ou do nosso espaço: Eugênio, Rosângela, Orson, Félix, Beatriz  e tantos outros. Nossos amigos. Nossos cúmplices.  

 

A casa, então, está aberta para a celebração e para a cumplicidade. A casa está aberta. Entremos. 

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