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MAPAS POÉTICOS - POR LUISA DUARTE

Ler um livro, ver um filme, entrar em uma exposição e de fato vê-la _ tudo requer um duplo movimento: deslocamento e envolvimento com o mundo. A exposição “Poéticas de uma Paisagem_Memória em Mutação”, de Alan Fontes, contemplado com o Prêmio CCBB Contemporâneo, ao articular diferentes tempos sobre um mesmo espaço, nos faz recordar essa receita tão óbvia quando fácil de ser esquecida.


Ao longo de uma residência de dois meses no Centro do Rio de Janeiro o artista mineiro cultivou diferentes formas de cartografar aquela região. Desde as digitais até aquelas que surgem como resultado de caminhadas a esmo. Panoramas da área onde se localiza o CCBB captados via Google Earth foram reproduzidos em cinco pinturas. A maior delas, vista nessa página, é baseada em uma imagem de 2009 da Praça Quinze e da Candelária. Em outra, mais poética e menos ancorada no seu referente, vemos uma pequenina Ilha Fiscal transformada pelo artista em uma espécie de barco que navega por entre uma bruma espessa.


Se por um lado a mostra nos endereça uma dimensão pictórica cujas raízes se encontram nos satélites, por outro estamos diante de uma segunda paisagem do mesmo espaço, construída a partir de uma condição íntima de flâneur, com itens achados nas ruas e colecionados ao longo da estadia do artista na cidade. Assim nos aguarda um sofá modernista, porta-retratos e molduras vazios, tapetes, um cabideiro, aparelhos de telefone, azulejos copiados dos modelos hidráulicos da tradicional Confeitaria Colombo, um papel de parede geométrico, a reprodução de uma pequenina fachada do cinema Odeon. Mas note-se, tudo está pintado de cinza.

Uma Reflexão Sobre a Cidade


Esse gesto confere aos objetos não somente uma segunda morte _ eles definitivamente não estão ali em seus estados de funcionamento _ , mas também tem efeito de reunir tudo sob um só véu que nos convoca a discernir as diferenças entre os mesmos com esforço. Pois, em meio ao cinza, existem matizes insuspeitados. É pela via do empenho no ato de ver que conseguimos traçar as relações entre a paisagem mínima dos objetos e aquela pública apropriada pelos satélites e transfigurada pela pintura. Assim, captamos a velocidade com que o tecido urbano se transforma a permanência de certos índices da vida privada, e nos deparamos com a dificuldade de apreender temporalidades diversas. “Poéticas de uma Paisagem _ Memória em Mutação” torna-se uma exposição especialmente pertinente ao se colocar como reflexão de uma cidade que precisa, mais do que nunca, pensar sobre si mesma e sobre o destino que deseja traçar. E como quem faz uma cidade são os que nela vivem, a mostra finda por nos recordar o óbvio, ou seja, que essa tarefa é nossa.

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