AS ENTRANHAS DAS CASAS - AGNALDO FARIAS
Entre os vários interesses de Alan Fontes, motivo preponderante de suas pinturas e instalações, sobressai o gosto por desastres. Desastres maiores ou menores, domésticos, como esse que ele encenou na sala de exposições do Museu da Pampulha, ou naturais, como tempestades e tufões, parte considerável provocado pelo homem, decorrências de intervenções que nos consagram como os seres mais destrutivos do planeta. Atento a esse problema, de resto uma evidência que, a julgar pelo presente, o futuro não rimará com estabilidade, Alan, escorado na ideia da casa como um corpo transforma sutilmente a representação de arquiteturas numa modalidade de retrato.
Ao passo em que nos oferece dados objetivos sobre as casas representadas, casas familiares, comuns aos bairros de classe média e média alta de qualquer cidade brasileira, extraídas de fotografias encontradas em revistas e sites, suas pinturas, por outro lado, assemelham-se a retratos. As casas de Alan Fontes têm suas estranhas revolvidas e expostas. As paredes derrubadas escancaram a intimidade doméstica, apresentam com crueza e dilaceramento um típico exemplar da atmosfera aconchegante com que estofamos nosso cotidiano.
Para essa mostra o artista recorre à casa de Juscelino Kubitschek situada às margens da Lagoa da Pampulha, ela própria, como todo o complexo, uma iniciativa ousada do então prefeito sob a forma da primeira grande encomenda à Oscar Niemeyer. Não se trata de uma casa, apenas, mas de um símbolo; a solução da estrutura formal composta por dois volumes trapezoidais perpendiculares, lavrados em branco, tipicamente moderna, anuncia um Brasil otimista, um país que então tornava presente seu futuro. Crença que o artista desmonta contrastando a imagem nítida da casa com um céu tempestuoso, sombrio; com os móveis, revestidos de cores amenas e neutras como a utopia sonhada, arrastados pelos ventos portáteis dos ventiladores; como as molduras vazias e as fotografias jogadas no chão, ícones ausentes ou desgastados pelo tempo.