ARTNEXUS/ALAN FONTES - POR ALESSANDRA SIMÕES
A insistência do artista Alan Fontes (Minas Gerais, Brasil) em abordar repetidamente um único tema — “a casa” — tem moldado sua obra em um jogo estético interessante e complexo. A exposição recentemente apresentada na Galeria Laura Marsiaj, no Rio de Janeiro, mostra que a fidelidade a esse projeto estético elevou seu trabalho a um nível de vigoroso impacto poético.
Na instalação La Foule (A Multidão), parte da série de pinturas intitulada Sweet Lands, Fontes mais uma vez retorna ao tema da casa como pano de fundo para uma reflexão significativa sobre a condição humana contemporânea. Um dos recursos mais recorrentes na obra de Fontes é a metalinguagem. São pinturas e instalações que abordam o próprio tema da representação; imagens que representam imagens. Por exemplo, muitas de suas pinturas usam fotografias para incorporar imagens de paredes que pertencem a casas — entre elas, a sua própria.
Esse recurso também está presente em La Foule, obra inspirada na música homônima de Édith Piaf, que narra, por meio de metáforas, um breve caso romântico em meio a uma multidão numa festa. Nessa instalação, Fontes reproduz uma pequena sala pintada em tons de cinza, onde posiciona objetos cotidianos pintados de branco, como garrafas, cadeiras e tapetes. Uma grande tela colorida com acrílico é colocada em uma das paredes dessas “casas”, simulando a continuação da sala: móveis, TV e várias fotografias.
Cria-se, assim, um jogo enigmático entre os espaços bidimensionais e tridimensionais, funcionando como metáfora visual da relação entre o real e o imaginário. O ambiente parece deixar vestígios da intimidade do casal descrito na canção de Piaf. Através das fotografias pintadas, complementadas por cenas absurdas — como um casal deitado em uma cama colocada numa praia deserta, ou uma casa em chamas — as imagens funcionam como fragmentos da narrativa. O efeito de incerteza se reflete na sensação do espectador de que os personagens da música já viveram ali e abandonaram o lugar como se fosse um palco vazio.
A reflexão baseada numa circunstância íntima, presente em La Foule, está completamente ausente na obra Sweet Lands. Ela consiste em duas séries de pinturas realistas que simulam fotografias aéreas: Casa, com imagens de casas isoladas, e City, com telhados de áreas residenciais. Apesar de Fontes afirmar que a série Casa trata de “retratos de desejos individuais, micro-paisagens afetivas”, suas imagens revelam uma estética pasteurizada de certa tendência da arquitetura contemporânea, cujos projetos carecem de identidade cultural; são símbolos da exaustão da interação humana nos grandes centros urbanos.
Essas pinturas em encáustica produzem uma luz estranhamente plana — e, portanto, irreal. Lembram o trabalho de Edward Hopper (1882–1967), especialmente suas cenas domésticas que evocam o sentimento de solidão da sociedade moderna americana. Também evocam temas como solidão, vazio, a imobilidade da vida urbana, presentes em algumas obras do artista britânico David Hockney, com seus ambientes metafísicos — por exemplo, imagens de sofás vazios ou da água mal agitada após alguém pular numa piscina.
A casa tem sido tema central na obra de Fontes há alguns anos, especialmente a casa nos grandes centros urbanos, como mostrado nas obras intituladas Kitnet — no Brasil, o termo refere-se a pequenos apartamentos, geralmente de apenas um cômodo. Fontes representa ambientes prosaicos, com personagens solitários ou completamente desprovidos de presença humana. São banheiros, salas, quartos com apenas móveis, objetos e retratos pendurados nas paredes, como únicos vestígios de vida.
Por que tantos retratos do próprio artista estão presentes nas imagens? É mais um indício do quebra-cabeça complexo que compõe o corpo de sua obra, a qual nega o princípio estético clássico da arte como representação do mundo. A noção de arte como objeto em si está claramente presente em várias obras de Fontes, que afinal são imagens sobre outras imagens.
Fontes recorre a uma linguagem tipicamente pós-moderna, permeada por pastiches e símbolos da contemporaneidade: ironia, caos, autorreferência, o sem sentido. Acima de tudo, Fontes encontrou um território ideal — a casa — para refletir sobre os dilemas existenciais da sociedade urbana. Sob a ideia da casa — o mais trivial dos símbolos humanos — repousa o assalto da humanidade para materializar o mundo e alcançar o próprio isolamento. Alan Fontes propõe uma experiência profunda do cotidiano contra a solidão ditada por nossos valores sociais.